Lembro das cores... da angústia... do cheiro... do seu desespero... de tudo que rolou aquele dia. Naquela noite. Naquela noite em que me joguei no abismo que era a mentira, pra cair de cara na verdade. Não morri na queda mas me quebrei em muitos mil pedaços e ainda estou tentando me juntar. Imagino como tem sido pra você...
Ainda tenho medo da minha covardia de não ter querido peitar o meu erro e ter dado seguimento com a história... Mas, ao mesmo tempo, tenho orgulho da minha coragem de não ter seguido com a história. Sim. é tudo muito ambíguo. Me sinto como dois, ou mais, o tempo inteiro.
Dois ou mais. Um feliz por ter colocado a cabeça pra fora do mar e respirado fundo um ar sem vícios. Um triste por ter saído de uma história que poderia ter sido muito diferente do que foi...
Enfim. o mundo girou muitas vezes... e quase deu uma volta completa em torno do sol... e hoje, curiosamente (ou não), dia 25 de setembro... me pego ainda pensando muito sobre tudo isso... sobre os 74 anos que restaram...
Ainda não tive o momento de me sentir livre de tudo isso. Será que esse dia chega? A tristeza ainda me persegue ao ver mulheres grávidas, casais apaixonados, famílias reunidas... me sinto como uma sombra que espreita e que sobra de um mundo que não faço parte e não consigo fazer parte. E isso dói. É um sentimento de querer e não querer... e esses quereres são muito cruéis.
- Como cê tá?
- Cê tá legal?
- Como cê vai?
- Cê vai também?
- Cê tá melhor?
- Cê tá em paz?
- Tá tudo bem?
E o que que a gente faz daquela angústia?
- Heim?
E se um dia precisar
De alguém pra desabar
Eu tô por aí