segunda-feira, dezembro 15, 2014

O nosso cotidiano



Somos todos abstrações. Vivemos abstrações. Sentimos abstrações... Mas será que tudo é uma abstração de algo real, como disse Platão?

Existe uma declaração zen-budista que prega o seguinte: "Antes que eu penetrasse no Zen, mas montanhas e os rios nada mais eram senão montanhas e rios. Quando aderi ao Zen, as montanhas não eram mais montanhas e os rios não eram mais rios. Mas, quando compreendi o Zen, as montanhas eram só montanhas e os rios eram só rios." Conseguir perceber e viver a realidade dessas palavras é uma arte.

O Zen é a "consciência do cotidiano". É perceber cada parte de um todo e todo todo em cada parte e encontrar um sentido superior em cada coisa, em cada gesto. Mas porque será que teimamos em viver ao contrário disso?

Essas abstrações vem das nossas negações e da nossa dificuldade em perceber a beleza e a força que existe em cada coisa. E perceber que somos parte desse todo. Ficamos negando o lugar de onde viemos, o idioma que falamos, as pessoas que experimentamos, que convivemos e não mais convivemos, nos trancamos do lado de fora de nós mesmos nessas trevas que são o lado de fora (ou o lado de dentro da caverna) deixando de perceber a luminosidade intensa do lado de dentro de nós, de tudo que somos(ou o lado de fora da caverna).

Escolhemos viver abstrações. Escolhemos ser abstrações. Escolhemos sentir abstrações. Escolhemos isso no momento que negamos o nosso cotidiano e toda beleza contida nisso.

Hoje, exercito a minha percepção sobre as coisas cotidianas. Sobre os meus percursos, meus trajetos. Exercito a percepção sobre de onde vim, onde vivo, meu entorno. Exercito as percepções sobre meus sentimentos, meus medos meus anseios... e por isso que hoje, prefiro dizer; mesmo que amanhã seja outra coisa, ainda que ontem seja diferente. Porque o ontem, o hoje e o amanhã fazem parte da mesma coisa e existem, em cada parte desse todo... Por isso hoje prefiro dizer o que sinto, e só a você pertence e cabe.

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Tal vez no te di mi amor,
pero mira que me has echo hoy,
me has echo enamorarme de la vida,
es que me has echo enamorarme de mi vida.