domingo, agosto 03, 2014

mas, cara!

do meu olhar pra dentro é uma desolação sem fim... e as vezes finjo não ver... não sentir... não tocar... mas toda hora algo me coloca frente a frente com isso. E o desconforto é enorme.

– Lida com isso, menino!

eu lido... mas, cara....

mascaro sim. e coloco um sorriso no rosto. e vou ver o mundo lá de fora. e vejo os outros sorrisos...

mas, cara?! 

sim. mascaro sim. e vou dar a volta ao mundo pra voltar ao lugar de onde saí e ver a tal da desolação de novo... 

mas, cara!!

sim! eu vou mascarar essa porra de lugar até que, quando eu voltar, ele esteja florido de novo...

mas... cara...

eu sei... só to fugindo de novo. e esses dias que eu fui e voltei e fui e voltei e fui e voltei... diferente de mim, não voltam...

tic... tac... tic... tac... tic... tac...

mas, cara...

...

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Havia uma sacola com uma mascara
E uma garota a encontrou
De início teve medo
Não sabia o que fazer
E nem como compor
Mas colocou sobre o seu rosto
E lhe caiu tão bem
Ficou

Acometida pela euforia de uma nova
face se lançou
Na rua e o mundo lhe retribuiu com
flores
Ninguém duvidou
Que a mascara cobria um rosto que
antes era só
Temor

E nada parecia lhe fazer parar de
acreditar
Que o novo rosto, e forte, na verdade
sempre fora o seu
E mesmo que alertassem
Ela respondia só
Sou eu

Mas teve um dia que ao descer à rua
O mundo desabou
Outros tantos lindos mascarados
transitavam sem pudor
Ajoelhou com raiva
Olhou pros céus
E antes de gritar
Chorou

E ao se levantar
Olhou pros mascarados
Condenou
São todos falsos
Tantas cópias
De um rosto que antes era meu
Ninguém lhe dava ouvidos
Ela então cansada se desmascarou
E sorriu

E dizem que sorrindo ela entendeu
Que a vida só se dá
Pra quem se deu