segunda-feira, fevereiro 08, 2010

A manhã derradeira


E ela acordou de um sonho confuso em que não conseguia se lembrar direito. Informações cruzadas, imagens distorcidas; ecos da última discussão. Sentou-se na cama, olhou para o lado e viu a pessoa com quem tinha um relacionamento duradouro envolta em lençóis brancos agarrada ainda com a almofada para suprir a carência de afeto, coisa que ela já não tinha condições de prover por conta dos momentos passados.

Em um breve momento ela viu um vulto passar e o barulho de uma porta batendo de leve. De um salto levantou e trocou-se e tentou ver quem era o estranho que estava em sua residência. E chegou na frente da janela e viu. Viu que era uma figura envelhecida, tinha a mesma altura e uma aura de desespero e tristeza em torno; dava para sentir o ar em volta dessa criatura e por um momento ela virou e ela pode ver: Era ela mesma - que com um sussuro rouco disse para não tentar impedir sua partida precisava descobrir quem era ela de verdade antes de retornar. Passou carregando sua atmosfera triste porta a fora em passos lentos, e depois ela pode ouvir um som de passos que parecia de uma corrida ao longe.

Pôs-se então a escrever. Escreveu para essa pessoa que estava deitada adormecida que precisava ir embora. Não sabia se voltaria, precisava fazer uma viagem para se reencontrar, literalmente. Disse que seria melhor para ambos se a separação ocorresse e que pela força que tinha, ficaria bem. E partiu levando tudo de si.

Correu direto para a única porta de saída possível: A estação de trem.

Ilustração: Isis Karol (http://www.fotolog.com.br/jbacante)