sexta-feira, fevereiro 26, 2010

Clareira no tempo

E como ter um candieiro no breu. Você só vê o que está nesse raio do alcance do candieiro, o que está a frente, é só uma espessa cortina negra de mistério. Não dá pra iluminar mais do que a luz do candieiro toca...

Tudo ainda muito turvo, tudo ainda muito quente, pulsante, sangrando. É como se no tempo abrisse uma clareira e nessa clareira um buraco e tragasse toda a existência para dentro dele deixando só você e seu candieiro, e tudo que a luz toca sumisse, e tudo que fosse oculto não mais pudesse ser revelado.

Como algo que provém de fatos idênticos, em algum determinado momento do tempo parado, tudo que foi tragado é cuspido de volta de qualquer jeito, sem qualquer ordem, sem qualquer cuidado.

Agora é só ter cuidado para saber onde pisar, o que fazer, e escolher dentro da luz do candieiro nessa imensidão o que melhor for oferecido pelo breu.

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Fez-se mar,
Senhora o meu penar
Demora não, demora não

Vai ver, o acaso entregou
Alguém pra lhe dizer
O que qualquer dirá

Parece que o amor chegou aí
Parece que o amor chegou aí
Eu não estava lá, mas eu vi
Eu não estava lá, mas eu vi

Clareira no tempo
Cadeia das horas
Eu meço no vento
O passo de agora
E o próximo instante, eu sei, é quase lá
Peço não saber até você voltar

http://www.youtube.com/watch?v=NK1_1p_jv28

quarta-feira, fevereiro 24, 2010

Como um Jazz

Acordou cedo. Sua preguiça era tanta que mal conseguiu abrir os olhos para ver dançando no vidro da janela os primeiros raios da aurora daquele dia quente que se iniciava e ainda tinha a cabeça inebriada por sonhos esquisitos.

Passados o que pareciam incontáveis minutos se levantou, olhou de um lado ao outro tentando desvendar em que lugar se encontrava e ao compasso seis por oito suas ideias foram sendo enfileiradas já sob o jato frio do chuveiro.

Tons improvisados de sua memória e sentimentos foram caminhando porta a fora carregando consigo os vocais dos metais que entoavam o tom matinal daquele momento em blues notes.

A paisagem polirrítmica aguçava ainda mais hipocondria trazida pelo barulho do despertador retirando dos sonhos esquisitos e inebriantes que o deixaram com gosto amargo por provar mais uma vez a realidade de um dia inteiro.

Vozes roucas e sincopadas o acompanhavam rumo a sua parada de ônibus para mais uma vez esperar pelo fim do dia e para então poder matar as saudades nos seus sonhos esquisitos.

segunda-feira, fevereiro 22, 2010

Espera

verbo intransitivo - Estar à espera; ficar esperando.
Ser intransitivo é algo cuja ação não passa do sujeito. Está encerrada nele mesmo. E assim fico... à espera. Encerrado em mim mesmo na angústia de se esperar.

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verbo transitivo - Ter esperança; contar com; aguardar.
Mas ter esperança, que semanticamente é sinônimo de esperar, é transitivo, é algo que transcende o sujeito, que é direcionado à um objeto distinto dele. Transitivo não porque a esperança é transitória mas, parafraseando, porque quando a espera tem um prazo ela se torna passageira e seu desembarque é determinado.

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[Veja bem além destes fatos vis.
Saiba, traições são bem mais sutis.
Se eu te troquei não foi por maldade.
Amor, veja bem, arranjei alguém
chamado 'Saudade']

quinta-feira, fevereiro 18, 2010

Colorblind

"El que mucho abarca, poco aprieta." Como uma amiga disse para mim depois de ler o post anterior, sabedoria popular argentina.

Não preciso ser daltônico para perceber que hoje o dia amanheceu preto e branco. Basta só não conseguir dormir quase a noite toda e amanhecer chovendo por dentro, como do lado de fora. A manhã chuvosa da tão esperada frente fria só intensificou a sensação de monocromia do momento. E tudo que era tão simples passa a ficar tão complexo.

Porque não é tão fácil mostrar que o sentimento é sempre único, mesmo que ele venha suportado por tentativas e erros do passado? Como fazer para parecer ser o que é, pautado, verídico e cumprido?

A angústia é que pelo que não vai ser vivido, pelo que vai ser dispensado, como dizia Drummond, a dor advém do não cumprido, acho que é algo desse gênero.

E o trem não vai parar, a vida vai seguir... com ou sem essa dor, o tempo não perdoa e acalma, o tempo cura.


[No, I'm not colorblind
I know the world is black and white
I try to keep an open mind
But I just can't sleep on this tonight]

E a cura pra essa dor não se encontra em farmácia.

História sobre o comportamento feminino

Não me lembro ao certo onde ouvi essa história... mas ela acabou servindo para ilustrar várias conversas e se mostrou verdadeira em muitas ocasiões.

É a história de uma mulher que tem a grande chance de ser feliz. Na história é ilustrada como a busca do homem ideal... mas pode ser facilmente substituída por qualquer coisa, tendo em vista que é natural do comportamento feminino a inconstância, a indecisão.

Por favor mulheres leitoras desse pouco visitado blog, não se ofendam. Não é uma história que combina com a maioria de vocês e nem em todos os campos do comportamento feminino.

Certa vez uma mulher recebeu a oportunidade de escolher um homem para passar a vida toda. Mas não seria assim tão fácil. Ela entraria num edifício e em cada andar ela encontraria uma qualidade de homem. Mas ela só teria a oportunidade de estar naquele andar uma vez. Se ela saisse, não poderia voltar, e o elevador a levaria para um andar superior. Era um edifício enorme e da portaria ela não conseguia enxergar seu topo e nem saber quantos andares tinha esse prédio mágico. Mas ela topou, e pensou que em tantos andares ela encontraria seu tão sonhado príncipe encantado.

Chegando ao hall, um local muito bem decorado, foi direto ao elevador para se encaminhar ao primeiro andar. No painel do elevador só continha um botão que indicava próximo andar com uma seta para cima. Não teria mais como voltar.

Quando a porta abriu ela se deparou com uma paisagem paradisíaca. Algo que parecia o mar do caribe, com uma choupana ao fundo e um horizonte avermelhado pelo fim de tarde. A esperando estava um homem muito bonito, não tinha exageros na sua beleza, era educado, romântico, cuidadoso, atencioso... E ela decidiu ficar de cara. Ficou durante 1 dia inteiro e foi embora no seguinte fugindo... Achou perfeito de mais.

Entrando no elevador ela foi para o andar seguinte. Chegou e viu uma sala que parecia uma biblioteca, com muitos volumes, uma lareira em um dos cantos, parecia muito com uma biblioteca de um palacete. Um homem com ar austero estava folheando algum livro aleátorio e quando a viu chegar largou imediatamente o livro e prontamente se propôs a aquecê-la, ela não entendeu mas entrando na sala viu que fora estava nevando. Ele veio com cobertores, pantufas, chá quente, carinho, atenção e educação. Ela ficou um pouco e foi embora, achou ele muito solicito.

No terceiro andar ela não ficou, era uma cela de prisão, um homem sujo, gordo, suado, com dentes enegrecidos estava esperando. Abriu a porta e fechou logo que percebeu do que se tratava.

O quarto foi o que ela ficou durante mais tempo. Era um cara com uma beleza normal, educado na medida, inteligente de mais. Talvez por isso ela tenha ido embora.

Ela foi subindo, se deparou com homens afeminados de mais, mulherengos de mais, secos de mais, grosseiros de mais, bonitos de mais... E não tinha mais ideia de onde estava...

Até que chegou em um andar onde não tinha nada... era a cobertura. Não tinha homem algum, não era lugar algum, não tinha nada além da vista do topo do mundo. Sentou e chorou. Percebeu que tinha perdido todas as chances e teria que ficar ali para sempre, sozinha.

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Bem, certamente não é um comportamento exclusivo feminino, mas temos um estranho hábito de sempre querer mais, querer tudo, querer outra coisa sem dar valor ao que já temos, ao que ja construímos, ao que já nos faz bem...

quarta-feira, fevereiro 10, 2010

O Pierrot

"A característica principal do seu comportamento é a sua ingenuidade, e é visto como um bobo, sendo sempre o alvo de partidas, mas mesmo assim continua a confiar nas pessoas. Pierrot também é representado como sendo lunático, distante e inconsciente da realidade."
Talvez seja assim mesmo. Talvez não. Agora o fato é que preciso ser mais direto para não ferir quem está no meu foco agora. E será feito.



segunda-feira, fevereiro 08, 2010

A manhã derradeira


E ela acordou de um sonho confuso em que não conseguia se lembrar direito. Informações cruzadas, imagens distorcidas; ecos da última discussão. Sentou-se na cama, olhou para o lado e viu a pessoa com quem tinha um relacionamento duradouro envolta em lençóis brancos agarrada ainda com a almofada para suprir a carência de afeto, coisa que ela já não tinha condições de prover por conta dos momentos passados.

Em um breve momento ela viu um vulto passar e o barulho de uma porta batendo de leve. De um salto levantou e trocou-se e tentou ver quem era o estranho que estava em sua residência. E chegou na frente da janela e viu. Viu que era uma figura envelhecida, tinha a mesma altura e uma aura de desespero e tristeza em torno; dava para sentir o ar em volta dessa criatura e por um momento ela virou e ela pode ver: Era ela mesma - que com um sussuro rouco disse para não tentar impedir sua partida precisava descobrir quem era ela de verdade antes de retornar. Passou carregando sua atmosfera triste porta a fora em passos lentos, e depois ela pode ouvir um som de passos que parecia de uma corrida ao longe.

Pôs-se então a escrever. Escreveu para essa pessoa que estava deitada adormecida que precisava ir embora. Não sabia se voltaria, precisava fazer uma viagem para se reencontrar, literalmente. Disse que seria melhor para ambos se a separação ocorresse e que pela força que tinha, ficaria bem. E partiu levando tudo de si.

Correu direto para a única porta de saída possível: A estação de trem.

Ilustração: Isis Karol (http://www.fotolog.com.br/jbacante)

sexta-feira, fevereiro 05, 2010

Estação da espera



E ali ela estava depois do trem partir consigo. Estava na estação vendo-se ir para mais uma viagem onde ela iria procurar por ela própria sem perceber que ela estava ali com ela mesma.

E a sensação de não se ter mais perto a deixou com uma angústia sem tamanho e não ficou ali parada, quis partir para tentar encontrar-se antes do fim.

Não tem mistério não, é só uma busca sem fim para entender porque essas fugas de si são tão necessárias para a manutenção de sua individualidade. O grande mistério é então entender o por quê de tanto desencontro.

Nos segundos que se passaram do inicio do rompimento da inércia da locomotiva ela ouvia ao fundo o som de uma radiola que cantarolava com som distorcido a música Adeus você e fez sentido as palavras que entoavam que as vezes se perder sem ter porque sem ter razão...

Enquanto se via ir de trem para a busca ela se virou e começou a pensar por onde começara procurar por si mesmo. Do alto da plataforma começou a corrida em busca de si mesmo mais uma vez, para no fim ter a palestra consigo numa típica crônica urbana.

Ilustração: Isis Karol (http://www.fotolog.com.br/jbacante)

quarta-feira, fevereiro 03, 2010

Crônicas



Crônica típica urbana de uma pessoa que esqueceu como era ser ela mesma e tenta desesperadamente se reencontrar consigo. Quando de tanto fugir de si ela consegue ter uma reunião face-à-face com o que ela tanto procurava: Ela mesmo.

Ela não por ser uma mulher, ela por ser A pessoa o sujeito dessa crônica. Horas antes das palavras serem ditas a pessoa fitou-se demoradamente, analisando cada aspecto físico como quem se olha no espelho e nada conseguia dizer. Até que o silêncio foi rompido por uma pergunta: Por onde você andou que fugia tanto de mim? E a resposta foi: Correndo atrás de você mesmo.

Ilustrações: Isis Karol (http://www.fotolog.com.br/jbacante)