quarta-feira, outubro 13, 2010

Comigar

Na tentativa de não tergiverssar
acobo por evasiusar
tentando não declamostrar
que posso, assim como o Guimarães
exprefalar de modo a criar
vocafalário todo meu
só pra tentar dedentromostrar
que o que mais quero é
te chamar para comigar
-este último sendo dele, do Guimarães.

quinta-feira, setembro 02, 2010

O homem e a lua




Era uma vez um homem que se apaixonou pela lua. Todas as noites em que ela surgia, ele subia a mais alta montanha para tentar demonstrar todos os sentimentos que nutria.

Uma bela noite de lua cheia, ele conseguiu chamar a atenção da lua. E eles acabaram virando amantes mas sem nunca se tocar. Juraram amor eterno e seguiram se encontrando todas as noites, separados pelo sol e a luz do dia.

Para o homem não era suficiente ser amante sem poder tocar sua amada. E pediu para a lua que lhe contasse o motivo. Ela disse que esse era o seu maior segredo e que não queria contar. Mas a insistência do homem foi tamanha que ela decidiu contar-lhe o seu segredo mais secreto mesmo sabendo que poderia perder seu amado para todo o sempre. Existia uma maldição.

Ela disse, então, para o homem que seu segredo mais secreto não poderia ser dito em voz alta, não poderia ser dito baixo no ouvido, teria que ser dito o mais próximo possível, teria que ser dito boca à boca... como um beijo. No momento em que os lábios se tocaram o homem se desfez como poeira e virou estrelas e música.

segunda-feira, agosto 30, 2010

Simpatria

E nesse estado de estado independente
Convivem emoções diversas
Por vezes em lenidade... vez por outra em total apoplexia.
E como tudo que é diverso
que verseia em prosa
que proseia em verso
De certo com total autoridade não-totalitária
medica os ânimos exaltados
anima os enfermos das batalhas
levanta e estima da diversidade
que em moção desses ventos sazonais
em monções que choram vorazes
que rapassem os terrenos pisados e marcados
por tantos sentimentos em antítese sem antífrases
sem autonomásias em perífrases
sem alegorias ou eufemismos
mas completamente em oximoro
até que exista a paz ou a morte de um dos lados
nessa caótica simpatria.

sexta-feira, agosto 27, 2010

Todo mundo, mundo todo...

Aquele momento em que as pupilas deixam de se cruzar é como uma pausa andante, amável e elegante, com seis compassos em que o mundo todo fica em suspensão. Um hiato.

Um... dois... três... quatro... o ar foge do pulmão e o entorno todo se escurece
Um... dois... três... quatro... os sons de todo mundo emudecem
Um... dois... três... quatro... a angústia e ansiedade consomem cada pulso
Um... dois... três... quatro... a contração que antecede o abrir de pálpebras
Um... dois... três... quatro... e é como se o mundo inteiro parasse só pra ver os olhos abrindo
Um... dois... três... quatro... e tudo volta a ter a sua cor e sons só das pupilas se reencontrarem

terça-feira, agosto 24, 2010

tal como areia

Ao mar e ao céu
Esse estranho tisne
Do que é marel

Tal qual a dor
como um cisne
sendo borregador

Amar é o céu
Esse estranho cisne

E como areia
não pode ser livre
não pode ser apertado
tem que ser meio-tapado
protegido.

Amar é o tisne
esse estranho céu.

quinta-feira, julho 29, 2010

Separô



Separô diante de mim quando minha tristeza era parte do dia


E foi mais ou menos assim. E se você parar pra pensar, como lápis aquarela. Daqueles que pinta com água, que fica bonito, que deixa alegre.
E só tá fazendo bem. Mesmo que não seja fácil. Mesmo que existam fantasmas pra serem exorcizados. Mesmo que no final de tudo, seja só gargalhada e abraços, e beijos, e carinhos, e filmes, e ressacas...

Amo vc. E iria só até o fim, daria tudo e mais um pouco de mim.

segunda-feira, junho 14, 2010

Um bilhete



É como a anti-gravidade que lhe falei certa vez, uma força que foi aplicada em um corpo ínfimo e fez com que ele expandisse em uma velocidade superior a da luz e se tornasse o cosmo, segundo a teoria. E esse foi seu beijo, nosso beijo, na beira da praia de ipanema, segundo o script de Manoel Carlos, quando escreveu nossa cena (Isso só porque você é personagem de suas novelas como dizem suas amigas). Mas o beijo do retorno nem foi lá... foi em botafogo, como a cena que escreveríamos, depois de um filme que seria chamado de cult por muitas outras pessoas.

E com aquele beijo universo se expandiu e estava em constante expansão, tudo porque seu beijo me acelerou em uma velocidade superiror a da luz. Estranha coincidência o seu nome ser Luz.

Hoje ele continua se expandindo, e se expandindo tanto que nem sei se consigo guardar isso pra mim, que nem sei como dizer o quanto ele cresceu e cresce...

O que sei é que isso não é infinito como o universo, como pensei com a inocência apaixonada. O que acredito é que ele se expande e se contrai em um movimento infinito. Assim como o que sinto quando te beijo, me expando e contraio de maneira infinita e complexa, de forma pura e erótica, de forma plácida e esperta, de forma infinita.

Quero essas primeiras sensações por muitos anos, e quando começar a esquecer como é, me dê outro beijo, para com que o ciclo recomeçe...

Te amo, namorada.
Te amo, namorada. Com a certeza de que um futuro construido ao seu lado, será tudo o que eu vou me esforçar para realizar...

Feliz data comercial entre o dia das mães e o dia dos pais... :P

quinta-feira, maio 06, 2010

Partidas e chegadas



You say good bye... and I say hello...
E é assim. Entre partidas e chegadas.
O tempo parece que não é o mesmo para nós.
Para você, às vezes, parece que não passa e por outras vezes já passou faz tempo...
Para mim parece que está aos saltos enquanto que ao meu redor aos pequenos passos.

You say good bye... and I say hello...
E é assim. Entre partidas e chegadas.
Enquanto você estende a mão em um aceno
Enquanto eu estendo a mão em uma saudação
O tempo estende os braços em uma avalanche tocando a vida

You say good bye... and I say hello...
Parece que não encaixa... parece que não ajusta
Parece que rema contra... parece que não entende
Mas só parece.
é preciso, então, entendimento... aceitação.

You say good bye... and I say hello...

segunda-feira, abril 19, 2010

Os olhos, às vezes, deviam se calar



Tenho certa fascinação por olhos e mais ainda por olhares. Mas só dos mais expressivos. Que conseguem prender minha atenção e despertar um impulso quase involuntário de mergulhar dentro deles. A cor e forma não me importam muito, mas sua profundidade e quando consigo me ver espelhado neles, quando olham nos meus, quando me olho neles.

Sei que não sou o primeiro nem o último a dizer que os olhos muito falam e muito mostram. Vou ser mais um a declarar fascinação por olhares profundos e misteriosos, olhares que travam e me seguram pelo tendão de aquiles no lugar, que me tiram o ar, que me fazem sonhar.

É nos olhos que começa o auto-conhecimento. É neles que conseguimos captar certas sutilezas que só anos de convivência permitem observar, tanto de si como do outro. Tanto de mim.

E meus olhos as vezes me enganam, falam coisas de mais sem que eu queira ou permita... tá certo que poucas pessoas conseguem decifrá-los... mas há quem consiga e reconheça meu estado de espírito.

terça-feira, abril 06, 2010

Tom soturno

Dá-me um tom soturno
em tom maior de ar macambúzio
em vagos acordes taciturnos
são cantados ao noturno

Dá-me um tom soturno
Com os azuis escuros, sorumbáticos
matizes raros e carrancudos
são pintados ao noturno

Dá-me um tom soturno...


Feng shui




E chega a hora de refletir e de arrumar a zona que está aqui dentro. Organizar as idéias, ordenar os pensamentos, limpar os sentimentos, jogar fora o que não serve, o que não volta mais.

Organização dolorosa, necessária, libertadora, demorada... Limpeza para arrumar a casa para as próximas visitas. Para os próximos amigos. Para as visitas próximas. Para os amigos próximos.

Organização para poder se reconhecer o que sou eu e o que eu sou dentro de toda essa confusão, entropia.

A casa fica bem melhor assim...

segunda-feira, abril 05, 2010

Ator principal




É um pensamento recorrente. Sou o ator principal da minha história. Sei que parece egoísta e é, mas nem tanto; reconheço que cada um é ator principal de sua própria história.

Cada ação que praticamos hoje muda o rumo da história e não só da nossa mas de todas as outras que cruzam a nossa. Cada grão que tiramos do lugar tem um impacto no todo de cada história que existe relacionada àquele grão.

E que marca deixamos em cada história que cruzou meu caminho é o que mais me pergunto nesses últimos meses. Nessa busca burra de procurar por mim mesmo acabei entrando numa sequência de tropeços em que não consegui até agora parar de tropeçar. Machucando sentimentos, magoando outras tantas, sem se importar com os impactos de cada atitude tomada e cada configuração que minha história ia se tomando, tomando para as pessoas que cruzam com ela.

Que papel tenho nisso tudo? Que personagem ocupo na história de cada um de vocês que por ventura lê esse blog? Que personagem eu quero ser de verdade?

Acho que prefiro ser alguém que não te magoe, que não te machuque, que não precise ouvir que só trago desilusão, sofrimento... talvez preferisse nem existir... mas existi em algum momento, seja para você leitor, seja para você amigo, seja para você.

Vou fazer um esforço sobre-humano para tentar ser melhor a cada dia. Para conseguir mensurar melhor minhas atitudes e o impacto na sua história, para conseguir ser mais eu sem esquecer de você que me lê, que faz parte da minha história, que fez parte da minha história e que talvez um dia fará parte dela também.

Somos todos atores principais de nossas histórias. E hoje, é o dia do renascimento, da reflexão, do entendimento, hoje é a Páscoa.

E essa serviu para que conseguisse analisar isso melhor.
Feliz Páscoa.

sexta-feira, março 12, 2010

Hoje o sol nasceu...

... e nasceu diferente. Sua luminosidade era a da esperança, a da redenção. Nasceu sem fazer força, sem choro, sem lágrima; nasceu da vontade conjunta de se fazer diferente ao menos uma vez.

E sua luminosidade entrou por minha retina e preencheu com o calor das novas paixões, com o calor da tranquilidade, com o calor da superação, com o calor que quebra o gelo e pulsa com alvíssaras a cada parte da alma.

Essa aurora aos poucos vai iluminando ao redor e mostrando cores, tons, sons, vidas que antes ficaram encerradas no fechar de olhos para o auto-conhecimento esquecendo-se de que para se encontrar precisa-se estar atento à todas as coisas externas e em com se insere nesse cenário.

E chega a hora de quebrar a casca, sair do ovo, gritar pro mundo que você está vivo.

---

quarta-feira, março 10, 2010

Longo caminho

Ela está ali agora. Perdida de si mesmo. Desde a despedida da estação ficou sem saber como fazer para buscar a si. Não tem pistas, não tem a quem perguntar, não tem pra quem reclamar. Então senta e sente todo o peso da eternidade cair sobre seus ombros.

Entre um soluçar e outro ela percebe que não está sozinha como pensou e começa a ouvir passos, mas ainda sem ver ninguém, ouvir vozes sem ver ninguém, sentir o vento das vestes passando apressadas ao seu lado, o cheiro da cidade, o calor do sol... mas sem ver nada... só um grande vazio. Então ela fecha bem os olhos e enxuga as lágrimas. Ainda de olhos fechados ela começa a ver tudo. Via os altos prédios, a calçada imunda em que estava sentada, os postes de luz, as pessoas, a vida toda. Tudo dentro dela mesma... então, respirou fundo e deu o próximo passo.

--

He's got a broken voice and a twisted smile,
Guess he's been that way now for quite awhile,
Got blood on his shoes and mud on his brim,
Did he do it to himself or was it done to him?

Now people say that he don't look well,
But all he needs from what I can tell,
Is someone to help wash away all the pain,
From his purple hands before it gets too late.

I saw him stand alone ... under a broke street light,
So sincere ... singing silent night,
But the trees, they were full ... and the grass was green,
It was the sweetest thing I had ever seen.

He may move slow,
But that don't mean he's going nowhere,
He may be moving slow,
But that don't mean he's going nowhere.

terça-feira, março 09, 2010

Livre tradução

Que bela bagunça

Você reúne o melhor dos dois mundos
Você é o tipo de mulher que faz qualquer homem cair
E elevá-lo novamente.

Você se mostra forte mas é carente
Humilde mas ambiciosa
E analisando sua linguagem corporal,
Sua maneira natural é gritante e a tenho lido,
O seu estilo é um tanto seletivo,
embora sua mente seja claramente imprudente
eu imagino que isso sugira
que isso é apenas a tradução do que a felicidade é

E que bela bagunça...
É como se recolhêssemos lixo das roupas

Bem, isto de certo modo me machuca quando o tipo de palavras que escreve
De certo modo transforma em facas
E não me importa meus nervos
Você pode dizer que é ficção.
Porque estou sendo submergido nas suas contradições, querida
Porque aqui estamos, aqui estamos...
E ainda estamos aqui.

Apesar de ser tendenciosa eu amo seus conselhos
Seus flashbacks são rápidos
e provavelmente são baseados na sua insegurança
Não há vergonha em ser louco,
Dependendo da maneira como você encara isso
São palavras que parafraseam esse relacionamento em que estamos

E que bela bagunça...
É como se recolhêssemos lixo das roupas

Bem, isto de certo modo me machuca quando o tipo de palavras que escreve
De certo modo transforma em facas
E a bondade e a cortesia são de certo modo a vida que eu ouvi
Mas é bacana dizer que que brincamos na sujeira
Porque aqui estamos, aqui estamos...
E ainda estamos aqui.

E que bela bagunça...
É como tentar adivinhar quando a única resposta é 'sim'

E por meio de palavras eternas em quadros de valor inestimável
Nós voaremos como pássaros que não são dessa terra
E como marés que vão e vem e corações que se desfiguram
Mas isto não é nenhuma preocupação quando estamos feridos juntos
E quando rasgarmos nossas vestes e mancharmos nossas blusas
Mas é agradável hoje e a espera realmente valeu a pena.



segunda-feira, março 08, 2010

Castelo de areia

Foram horas, dias, semanas... tanta dedicação. Não ouvia os chamados naturais que indicavam que aquilo poderia acontecer... Os estrondos ao longe das ondas quebrando não tiravam sua atenção e ele continuava ali, insistentemente ali, edificando com esmero cada parte de seu belo castelo.

Uma obra que seria prima se tivesse sido construída em lugar diferente da beira-mar. Não é ali lugar propício para castelos quando se deseja que este seja grande, forte, inabalável e duradouro. Não era ali lugar propício para se dedicar tanto para tentar construir o castelo perfeito. Não era ali o lugar proprício.

Quando então os barulhos foram altos demais, os chamados fortes demais, as aflições fortes demais e quando se deu conta a praemar já alcançava os jardins daquela bela construção. Tentou correr, colocar obstáculos, colocar desvios para a força das águas... mas aquele era o território do mar e uma hora ele viria reclamar seu direito.

Aos poucos, onda por onda o castelo foi desmantelado até só restar água e a maré alta já ocupava e se misturava às lágrimas salobras do construtor por ter perdido obra tão promissora, tão imponente, tão forte... mas virtualmente.

Não há mais muito o que fazer... o castelo se foi e com ele todo o trabalho, todo o sacrifício, toda a dedicação... foi-se numa onda de fúria e descontrole que colocou tudo a baixo.

Só resta esperar a vazante. Com a maré-baixa, reavaliar as sitações. Tentar construir, então, o castelo novamente.

---

Solidão de manhã,
Poeira tomando assento
Rajada de vento,
Som de assombração, coração
Sangrando toda palavra sã

A paixão puro afã,
Místico clã de sereia
Castelo de areia,
Ira de tubarão, ilusão
O sol brilha por si

Açaí, guardiã
Zum de besouro um imã
Branca é a tez da manhã

segunda-feira, março 01, 2010

A Saudade

Substantivo feminino que é único. Não existe palavra em outro idioma que seja tão definitiva, que consiga reunir tanto significado. Saudade é um substantivo com alma de verbo intransitivo. E em muitas vezes é eufemismo de algo maior.

Sentir falta ou saudade anda de mãos dadas com a espera. Sentir saudade do que é, do que foi, do que será, do que não foi, do que nunca será e do que certamente será. Saudade.

A palavra que desperta as mais diversas emoções, susto, pasmo, dor, alegria, ardor, ternura, raiva. Palavra que tem a origem nas profundezas da história portuguesa que vem do latim solitas / solitatis que significam solidão e a palavra sofre influencia das palavras salute / salutione / salutare que significam saúde e ainda pode ser sinônima de salvare / salvatione que quer dizer salvar, salvação. Isso pode explicar em partes o tamanho do significado dessa que é a sétima palavra de tradução mais difícil, segundo especialistas.

Mas não dá para teorizar muito sobre, é melhor deixar sentir. E o resto?! Bem, como diria o poeta... "O resto é o mar, é tudo que não sei contar..."


sexta-feira, fevereiro 26, 2010

Clareira no tempo

E como ter um candieiro no breu. Você só vê o que está nesse raio do alcance do candieiro, o que está a frente, é só uma espessa cortina negra de mistério. Não dá pra iluminar mais do que a luz do candieiro toca...

Tudo ainda muito turvo, tudo ainda muito quente, pulsante, sangrando. É como se no tempo abrisse uma clareira e nessa clareira um buraco e tragasse toda a existência para dentro dele deixando só você e seu candieiro, e tudo que a luz toca sumisse, e tudo que fosse oculto não mais pudesse ser revelado.

Como algo que provém de fatos idênticos, em algum determinado momento do tempo parado, tudo que foi tragado é cuspido de volta de qualquer jeito, sem qualquer ordem, sem qualquer cuidado.

Agora é só ter cuidado para saber onde pisar, o que fazer, e escolher dentro da luz do candieiro nessa imensidão o que melhor for oferecido pelo breu.

---

Fez-se mar,
Senhora o meu penar
Demora não, demora não

Vai ver, o acaso entregou
Alguém pra lhe dizer
O que qualquer dirá

Parece que o amor chegou aí
Parece que o amor chegou aí
Eu não estava lá, mas eu vi
Eu não estava lá, mas eu vi

Clareira no tempo
Cadeia das horas
Eu meço no vento
O passo de agora
E o próximo instante, eu sei, é quase lá
Peço não saber até você voltar

http://www.youtube.com/watch?v=NK1_1p_jv28

quarta-feira, fevereiro 24, 2010

Como um Jazz

Acordou cedo. Sua preguiça era tanta que mal conseguiu abrir os olhos para ver dançando no vidro da janela os primeiros raios da aurora daquele dia quente que se iniciava e ainda tinha a cabeça inebriada por sonhos esquisitos.

Passados o que pareciam incontáveis minutos se levantou, olhou de um lado ao outro tentando desvendar em que lugar se encontrava e ao compasso seis por oito suas ideias foram sendo enfileiradas já sob o jato frio do chuveiro.

Tons improvisados de sua memória e sentimentos foram caminhando porta a fora carregando consigo os vocais dos metais que entoavam o tom matinal daquele momento em blues notes.

A paisagem polirrítmica aguçava ainda mais hipocondria trazida pelo barulho do despertador retirando dos sonhos esquisitos e inebriantes que o deixaram com gosto amargo por provar mais uma vez a realidade de um dia inteiro.

Vozes roucas e sincopadas o acompanhavam rumo a sua parada de ônibus para mais uma vez esperar pelo fim do dia e para então poder matar as saudades nos seus sonhos esquisitos.

segunda-feira, fevereiro 22, 2010

Espera

verbo intransitivo - Estar à espera; ficar esperando.
Ser intransitivo é algo cuja ação não passa do sujeito. Está encerrada nele mesmo. E assim fico... à espera. Encerrado em mim mesmo na angústia de se esperar.

---
verbo transitivo - Ter esperança; contar com; aguardar.
Mas ter esperança, que semanticamente é sinônimo de esperar, é transitivo, é algo que transcende o sujeito, que é direcionado à um objeto distinto dele. Transitivo não porque a esperança é transitória mas, parafraseando, porque quando a espera tem um prazo ela se torna passageira e seu desembarque é determinado.

---
[Veja bem além destes fatos vis.
Saiba, traições são bem mais sutis.
Se eu te troquei não foi por maldade.
Amor, veja bem, arranjei alguém
chamado 'Saudade']

quinta-feira, fevereiro 18, 2010

Colorblind

"El que mucho abarca, poco aprieta." Como uma amiga disse para mim depois de ler o post anterior, sabedoria popular argentina.

Não preciso ser daltônico para perceber que hoje o dia amanheceu preto e branco. Basta só não conseguir dormir quase a noite toda e amanhecer chovendo por dentro, como do lado de fora. A manhã chuvosa da tão esperada frente fria só intensificou a sensação de monocromia do momento. E tudo que era tão simples passa a ficar tão complexo.

Porque não é tão fácil mostrar que o sentimento é sempre único, mesmo que ele venha suportado por tentativas e erros do passado? Como fazer para parecer ser o que é, pautado, verídico e cumprido?

A angústia é que pelo que não vai ser vivido, pelo que vai ser dispensado, como dizia Drummond, a dor advém do não cumprido, acho que é algo desse gênero.

E o trem não vai parar, a vida vai seguir... com ou sem essa dor, o tempo não perdoa e acalma, o tempo cura.


[No, I'm not colorblind
I know the world is black and white
I try to keep an open mind
But I just can't sleep on this tonight]

E a cura pra essa dor não se encontra em farmácia.

História sobre o comportamento feminino

Não me lembro ao certo onde ouvi essa história... mas ela acabou servindo para ilustrar várias conversas e se mostrou verdadeira em muitas ocasiões.

É a história de uma mulher que tem a grande chance de ser feliz. Na história é ilustrada como a busca do homem ideal... mas pode ser facilmente substituída por qualquer coisa, tendo em vista que é natural do comportamento feminino a inconstância, a indecisão.

Por favor mulheres leitoras desse pouco visitado blog, não se ofendam. Não é uma história que combina com a maioria de vocês e nem em todos os campos do comportamento feminino.

Certa vez uma mulher recebeu a oportunidade de escolher um homem para passar a vida toda. Mas não seria assim tão fácil. Ela entraria num edifício e em cada andar ela encontraria uma qualidade de homem. Mas ela só teria a oportunidade de estar naquele andar uma vez. Se ela saisse, não poderia voltar, e o elevador a levaria para um andar superior. Era um edifício enorme e da portaria ela não conseguia enxergar seu topo e nem saber quantos andares tinha esse prédio mágico. Mas ela topou, e pensou que em tantos andares ela encontraria seu tão sonhado príncipe encantado.

Chegando ao hall, um local muito bem decorado, foi direto ao elevador para se encaminhar ao primeiro andar. No painel do elevador só continha um botão que indicava próximo andar com uma seta para cima. Não teria mais como voltar.

Quando a porta abriu ela se deparou com uma paisagem paradisíaca. Algo que parecia o mar do caribe, com uma choupana ao fundo e um horizonte avermelhado pelo fim de tarde. A esperando estava um homem muito bonito, não tinha exageros na sua beleza, era educado, romântico, cuidadoso, atencioso... E ela decidiu ficar de cara. Ficou durante 1 dia inteiro e foi embora no seguinte fugindo... Achou perfeito de mais.

Entrando no elevador ela foi para o andar seguinte. Chegou e viu uma sala que parecia uma biblioteca, com muitos volumes, uma lareira em um dos cantos, parecia muito com uma biblioteca de um palacete. Um homem com ar austero estava folheando algum livro aleátorio e quando a viu chegar largou imediatamente o livro e prontamente se propôs a aquecê-la, ela não entendeu mas entrando na sala viu que fora estava nevando. Ele veio com cobertores, pantufas, chá quente, carinho, atenção e educação. Ela ficou um pouco e foi embora, achou ele muito solicito.

No terceiro andar ela não ficou, era uma cela de prisão, um homem sujo, gordo, suado, com dentes enegrecidos estava esperando. Abriu a porta e fechou logo que percebeu do que se tratava.

O quarto foi o que ela ficou durante mais tempo. Era um cara com uma beleza normal, educado na medida, inteligente de mais. Talvez por isso ela tenha ido embora.

Ela foi subindo, se deparou com homens afeminados de mais, mulherengos de mais, secos de mais, grosseiros de mais, bonitos de mais... E não tinha mais ideia de onde estava...

Até que chegou em um andar onde não tinha nada... era a cobertura. Não tinha homem algum, não era lugar algum, não tinha nada além da vista do topo do mundo. Sentou e chorou. Percebeu que tinha perdido todas as chances e teria que ficar ali para sempre, sozinha.

---

Bem, certamente não é um comportamento exclusivo feminino, mas temos um estranho hábito de sempre querer mais, querer tudo, querer outra coisa sem dar valor ao que já temos, ao que ja construímos, ao que já nos faz bem...

quarta-feira, fevereiro 10, 2010

O Pierrot

"A característica principal do seu comportamento é a sua ingenuidade, e é visto como um bobo, sendo sempre o alvo de partidas, mas mesmo assim continua a confiar nas pessoas. Pierrot também é representado como sendo lunático, distante e inconsciente da realidade."
Talvez seja assim mesmo. Talvez não. Agora o fato é que preciso ser mais direto para não ferir quem está no meu foco agora. E será feito.



segunda-feira, fevereiro 08, 2010

A manhã derradeira


E ela acordou de um sonho confuso em que não conseguia se lembrar direito. Informações cruzadas, imagens distorcidas; ecos da última discussão. Sentou-se na cama, olhou para o lado e viu a pessoa com quem tinha um relacionamento duradouro envolta em lençóis brancos agarrada ainda com a almofada para suprir a carência de afeto, coisa que ela já não tinha condições de prover por conta dos momentos passados.

Em um breve momento ela viu um vulto passar e o barulho de uma porta batendo de leve. De um salto levantou e trocou-se e tentou ver quem era o estranho que estava em sua residência. E chegou na frente da janela e viu. Viu que era uma figura envelhecida, tinha a mesma altura e uma aura de desespero e tristeza em torno; dava para sentir o ar em volta dessa criatura e por um momento ela virou e ela pode ver: Era ela mesma - que com um sussuro rouco disse para não tentar impedir sua partida precisava descobrir quem era ela de verdade antes de retornar. Passou carregando sua atmosfera triste porta a fora em passos lentos, e depois ela pode ouvir um som de passos que parecia de uma corrida ao longe.

Pôs-se então a escrever. Escreveu para essa pessoa que estava deitada adormecida que precisava ir embora. Não sabia se voltaria, precisava fazer uma viagem para se reencontrar, literalmente. Disse que seria melhor para ambos se a separação ocorresse e que pela força que tinha, ficaria bem. E partiu levando tudo de si.

Correu direto para a única porta de saída possível: A estação de trem.

Ilustração: Isis Karol (http://www.fotolog.com.br/jbacante)

sexta-feira, fevereiro 05, 2010

Estação da espera



E ali ela estava depois do trem partir consigo. Estava na estação vendo-se ir para mais uma viagem onde ela iria procurar por ela própria sem perceber que ela estava ali com ela mesma.

E a sensação de não se ter mais perto a deixou com uma angústia sem tamanho e não ficou ali parada, quis partir para tentar encontrar-se antes do fim.

Não tem mistério não, é só uma busca sem fim para entender porque essas fugas de si são tão necessárias para a manutenção de sua individualidade. O grande mistério é então entender o por quê de tanto desencontro.

Nos segundos que se passaram do inicio do rompimento da inércia da locomotiva ela ouvia ao fundo o som de uma radiola que cantarolava com som distorcido a música Adeus você e fez sentido as palavras que entoavam que as vezes se perder sem ter porque sem ter razão...

Enquanto se via ir de trem para a busca ela se virou e começou a pensar por onde começara procurar por si mesmo. Do alto da plataforma começou a corrida em busca de si mesmo mais uma vez, para no fim ter a palestra consigo numa típica crônica urbana.

Ilustração: Isis Karol (http://www.fotolog.com.br/jbacante)

quarta-feira, fevereiro 03, 2010

Crônicas



Crônica típica urbana de uma pessoa que esqueceu como era ser ela mesma e tenta desesperadamente se reencontrar consigo. Quando de tanto fugir de si ela consegue ter uma reunião face-à-face com o que ela tanto procurava: Ela mesmo.

Ela não por ser uma mulher, ela por ser A pessoa o sujeito dessa crônica. Horas antes das palavras serem ditas a pessoa fitou-se demoradamente, analisando cada aspecto físico como quem se olha no espelho e nada conseguia dizer. Até que o silêncio foi rompido por uma pergunta: Por onde você andou que fugia tanto de mim? E a resposta foi: Correndo atrás de você mesmo.

Ilustrações: Isis Karol (http://www.fotolog.com.br/jbacante)

domingo, janeiro 31, 2010

Código praiano



Esse final de semana fui a praia, coisa rara de se acontecer... não gosto tanto de praia. Bem, não gosto por me parecer suja, caótica de mais, por ter sal na água, enfim, por motivos dos mais diversos. O mais interessante é que sempre que vou adoro. A paisagem é linda, os Dois irmãos ao fundo é sensacional, os corpos dourando, as ondas quebrando e em raros momentos, só o seu barulho do abraço com a costa.

Foi mais ou menos assim que aconteceu: Cheguei com um grande amigo, que não é do Rio, para passar algumas horas e já fiquei frustrado com tamanha sujeira e começamos a discutir sobre ela e as pessoas que frequentam e contribuem para o acúmulo de tranqueiras na água e areia. Em determinado momento ele disse que era assim mesmo e que a praia é democrática. Parei por alguns instantes de ouvir o que ele estava dizendo, de escutar os vendedores gritando suas mercadorias, de perceber as crianças correndo jogando areia umas nas outras, de reparar nos micro-biquinis das meninas esculturais, de sentir a água batendo no pé para se formar na minha cabeça um imenso, sonoro, em caixa alta e negrito NÃO! E depois percebi que esse "não" tinha ultrapassado as barreiras do meu pensamento e fora externado. Entendi que tinha saído quando vi a perplexidade estampada na cara de Vítor, meu amigo.

Passado esse choque eu expliquei os motivos óbvios da sujeira, do tumulto e de tudo e pensei numa ótima solução, ao meu ver, para resolver esse problema: Todos deveriam ser habilitados para ir a praia. Sim, isso mesmo, habilitação de praiano. O cidadão faz um curso teórico, faz exames físicos e psico-técnicos, uma prova teórica e outra prática, assim como na auto-escola. Isso para aprender a recolher sua sujeira, não levar seu limpo canino para a areia, não jogar frescobol nem futebol na beira da praia, não ficar torrando no sol deixando o corpo com cores não saudáveis, aprendendo a se comunicar em tons aceitáveis, e não fazendo suas necessidades na praia... Então deveria institucionalizar-se um manual de normas e condutas com penalidades, assim como o código de trânsito, criaria-se, então, o Código Praiano, com multas, penalidades e possibilidade de ter sua permissão de ir a praia suspensa ou cassada diante da gravidade dos desvios de comportamento.

Parece viagem de gente chata isso... bem sou assim também.
Mas acho que daria certo.

sexta-feira, janeiro 29, 2010

Cena cotidiana

Eis que um cidadão entra no coletivo com seu mais moderno aparelho celular ao som da doce melodia do funk carioca quando então minha compahia fala "Eis a pior invenção da humanidade".

Por instantes seculares eu refleti sobre todas as possíveis piores invenções que a humanidade produziu para tentar argumentar ou concordar com o comentário realizado.

Bombas, armas, doenças, satélites...

Nada disso... diante da infinidade de coisas só consegui responder: "O quê?! O ser-humano?!"

quarta-feira, janeiro 27, 2010

Ciclo de águas

Parafraseando sem ser prolixo: Tudo começa e termina. Ciclo.
Depois do pranto vem o riso, depois da tempestade vem a bonança, depois do dia vem a noite e vem o dia e vem a noite... E o ciclo talvez seja pautado no contraste, no oposto, se começa água, vira nuvem, volta água...

E enquanto tudo que é absorvido e expelido num ciclo sem fim de troca de informações e consumo insano de emoções por um momento acontece uma pausa para reavaliação para, então, se renovar um ciclo em espiral.

Todavia, a via estreita entre o começo e o fim e o começo se afunila na vontade de que os ciclos recomecem e terminem sempre e se renovem, sem prolixa.

E como tudo que nasce e morre, vamos então voltar à vida, antes que essa acabe.